Café, xícara de porcelana e um amor guardado

e8db476dcc91fcda13615e9a2dd256c1

6h da tarde.
Aquele cheiro de café passado no coador de pano. A essa hora já não havia mais ninguém na rua, nenhum barulho de carro, apenas o som do vento que balançava as cortinas e invadia a sala.

“Feche a janela, querido, mas se apresse.Já vai começar a novela”.

E depois de feito, sentávamos em nossas poltronas, lado a lado, segurando nossas xícaras de porcelana, as quais ela sempre insistia em me lembrar “cuidado para não quebrar mais uma, essas são as últimas que sobraram”. Mas, eu sabia que dizia isso mais a ela, do que a mim, de fato. Mulheres e seus amores exagerados por presentes de casamento, mas eu não discordava, apenas tomava um gole de café, sutilmente, enquanto a olhava ligar o rádio.

Naquela época não havia imagens que acompanhassem as narrações, mas coloríamos as cenas em nossa mente. Engraçado lembrar como a simplicidade era capaz de ocupar tanto espaço na nossa imaginação. Alice sempre se emocionava quando o casal da novela conseguia ficar juntos, adorava um final feliz.

Ouvíamos atentamente cada palavra do narrador, e esse fazia questão de dar a devida entonação a cada sílaba. E conforme a história avançava, nossas expectativas cresciam. Alice costumava imaginar a personagem sempre morena, com cabelos encaracolados e justificava esta suposta aparência dizendo: você viu como ela é decidida, querido? Isso e característica de mulata, arretada que só! E quando chegava ao fim, suas mãos trêmulas se forçavam a ficar firmes a fim de desligar o rádio e as palavras que viriam a seguir eram tão rotineiras que eu poderia até dizer junto com ela.

“não vejo a hora de saber o que vai acontecer amanhã”.

No dia seguinte, tudo se repetia, e aquelas mãozinhas, antes delicadas e com tremor sutil, com o passar do tempo enrugam e fica cada vez mais difícil acertar a frequência no rádio. Mas, Alice não desistia e mesmo quando eu me oferecia para ligar, respirava fundo e se concentrava: preciso saber o que vai acontecer na novela hoje. E mesmo com a tristeza que eu sentia em sua voz quando esse processo demorava mais a cada dia, tudo se acalmava quando a voz do narrador finalmente entrava em sintonia.

Seus olhos voltavam a brilhar e suas mãos descansavam nas minhas, tão quietas que pareciam ouvir a novela também. Foram longos anos, envelhecemos naquela sala, ao som de brigas e romances narrados. Os tempos mudaram completamente, mas, mesmo com o surgimento da televisão, posso afirmar que esta tira de nós o que temos de mais precioso, nossa expectativa. Alice tinha mãos trêmulas, mas a sua imaginação a fazia esquecer, todos os dias, o quão difícil era viver assim.

Sua busca por faces e sorrisos a levavam longe de todas as preocupações. E eu só conseguia admirar tanta beleza por trás daquela felicidade que ela tinha só por estar ao lado de um rádio. Mesmo podendo, hoje, apertar um botão no controle e ver todas as imagens correndo sob meus olhos, dispenso. Gosto mesmo e da minha poltrona, meu rádio velho e o cheiro de café, e este bebo todas as tardes na última xícara de porcelana que sobrou, a qual guardo na prateleira com muito cuidado. Alice e eu nascemos em uma época onde não jogávamos nada fora, tudo era sempre guardado e cuidado por toda a vida.

Prefiro, então, estar aqui, no lugar de sempre, ouvindo o chiado que o rádio faz quando erro a frequência, quase como se me dissesse: “querido, mal posso esperar pra saber o que vai acontecer amanhã”…

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s