Mais arte, menos guerra

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Alice entra em uma loja de armamentos, era tão pequena que nem ao menos conseguia enxergar através do balcão:
– Tem alguém aqui? – ela perguntou, levantando-se nas pontas dos pés.
Um atendente se debruçou sobre o balcão, tinha 27 anos e não estava em um dia bom, estava em um daqueles dias que tudo parece dar errado e não queria perder tempo com uma menina:
– O que quer?
– Eu gostaria de comprar todas as armas, por favor!
Ele ri, afastando-se:
– Moço, eu estou falando sério!
– Por favor, eu não tenho tempo para isso. Quantos anos você tem? Quer que eu a ajude a encontrar sua mãe?
– Eu tenho quase 9 anos e fique sabendo que eu não estou perdida, eu vim sozinha.
– E o que uma menina de 8 anos veio fazer em uma loja de armamentos sozinha?
– Mas eu já disse, moço. Quero comprar essas armas.
– Só pode estar brincando comigo! Digamos que você queira realmente comprar as armas, tem dinheiro?
– Acho que não tenho,
– Foi o que pensei. – Disse o homem impaciente.
– Na verdade, eu não quero as armas para mim, só quero emprestadas por um tempo, prometo que devolvo.

Foi então que o atendente começou a rir e nem mesmo ele sabia quando foi a última vez que riu tanto. Aquela menininha estava começando a chamar sua atenção, mas o que ele ainda não sabia é que ela não era uma menina comum, era a garota que havia nascido com a percepção grudada em seus eternos olhos lacrimejantes, cujas lágrimas se recusavam a cair.

– Posso saber o que você quer fazer com tantas armas?
– Pode sim! Eu quero encher todas com água.
– E por que você quer fazer isso?
– Atiraram no meu pai há um mês, com uma arma igual a essas que o senhor vende aqui. Se eu tivesse tido essa ideia antes, quando os assassinos tivessem apertado o gatilho em direção ao meu pai, não teria saído nenhuma bala, só água. Ele ficaria molhado e no máximo gripado, mas pelo menos ainda estaria aqui comigo.
O atendente sentiu que vinha lágrimas, sentiu uma sensação de vazio e um sorriso se formando no canto da boca.
– Mas se você não pode refazer o que aconteceu com o seu pai, por que ainda se importa com essas armas?
– Porque eu quero que sejam de brinquedo. Quero que sejam brincadeira de criança. Quero que as pessoas as usem para se refrescarem em um dia quente de domingo e não para tirar a vida de alguém. Parece que ninguém percebe que estão todos fora de controle. Não é preciso matar. O mundo existe para todos. Afinal, somos todos reis e rainhas, mas infelizmente as pessoas gostam de jogar outras da escada só para subir algum degrau a mais.

O homem se sentiu culpado por nunca ter pensando naquilo abtes, mas ficou feliz por aquela garotinha ter entrado na loja. Viu o quanto é puro o mundo visto pelos olhos de uma criança e passou a ver algumas coisas de um modo diferente também, mais analítico. Ele percebeu que estrelas não existiam só no céu e que tudo o que as pessoas precisavam era de mais compaixão.

– Então o que você quer é evitar outras mortes?
– Tudo o que eu quero é mais arte e menos guerra.

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