Drink me (alone)

d4

– Daqui alguns minutos vamos fechar.

Eu estava tão submersa nos meus pensamentos, olhando fixamente para o porta-copos e analisando com cautela cada pedaço abstrato que o compunha, que não havia prestado atenção no que o garçom estava dizendo.

– Oi?

– Disse que em alguns minutos a gente vai fechar.

Assenti envergonhada e pedi a conta. Depois do que parecia ser uma eternidade, retornei a olhar em volta do bar. O que antes era um local com pouco espaço até para se movimentar, naquele momento se resumia em um cômodo com dois ou três gatos pingados e em garçons impacientes, colocando cadeiras para cima numa tentativa de mostrar que estava na hora de irmos embora. Enquanto esperava a conta voltei a me concentrar no porta-copos e percebi o quanto também havia de abstrato naquele dia.

Um conjunto de borrões. Desde que ele havia me ligado eu não tinha conseguido manter a ordem dentro de mim nem por um minuto. Já fazia tanto tempo e foram repetidas as vezes que esperei por aquela chamada, que quando vi o nome na tela do celular mal pude raciocinar. Depois de desligar a ligação, nada mais tinha forma. Assim como o desenho, eu estava bagunçada outra vez, sem nada que fizesse sentido dentro de mim. A conversa não durou mais que dois minutos, ele só disse que queria me ver e sugeriu que nos encontrássemos no lugar de sempre. “Não mais o de sempre”, pensei, uma vez que a nossa rotina tinha ficado lá no passado. Mas, sem contestar, apenas disse que iria.

O que fez eu me arrepender depois do terceiro copo que eu esvaziava sozinha. Depois de muitas ligações caindo na caixa postal e olhares piedosos para a garota sozinha no bar, percebi que era só mais uma confirmação do quanto eu ainda conseguia me decepcionar. Já tinha cansado de tentar arrumar explicações, podia ser o trânsito no início, mas com certeza não à uma da manhã. Por fim, com a cabeça latejando e o pé dolorido pelo esforço em caminhar por vinte minutos em um salto apertado, fui embora.

Já não tinha mais nada o que esperar daquela madrugada. Sem preocupação alguma com a reação alheia, tirei os sapatos e me pus a caminhar descalça e andando pela rua percebi que não eram só os meus pés que estavam desprotegidos e machucados.

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