De forma alguma….

De forma alguma, a vida é um acaso, e os motivos que balançam o carro na estrada e entortam os caminhos podem ser invisíveis aos olhos mas eu os sinto em tudo que eu faço. Nunca estive pronta para sair da minha casa, de me demitir de um emprego, de falar pra uma amiga que a amizade não me fazia bem, de mudar de cidade, mudar a cor do cabelo ou decidir que daqui em diante eu estaria dirigindo sem ninguém no banco do passageiro. Uma vez, eu me voluntariei para passar o dia no hospital e segurei a mão de uma menina de oito anos que me perguntou se eu estava pronta pra ver o lado feio das pessoas. Eu segurei seu cabelo enquanto vomitava e precisei tirar os meus cílios postiços que descolavam com as lágrimas, e no fim, disse a ela que o lado feio é apenas o lado bonito em um dia ruim. E hoje, eu te diria, Ana, que nunca estive pronta pra nada do que fiz, mas sempre estive disposta. Acho que isso num leilão valeria muito mais rodadas. O estar pronto seria vendido em duas ou três por alguma quantia simbólica só pra ajudar o evento de caridade, porque é um produto muito simples. Você não leva crédito algum por estar numa situação onde não te restam dúvidas a não ser a que está em mente, sem medo, sem travar com as possibilidades – não é o tipo de coisa que vai parar exposto num museu. Agora, o estar disposto, esse sim, o leiloeiro perderia o fôlego contando os interessados. É o que mais tem de valor, logo acima de um tapete egípcio e um diamante qualquer. Afinal, o que pode ser mais valioso do que estar disposta a conversar com o carnaval que os batimentos fazem e ainda sim, olhar pra frente? Quanto poderia valer viver uma vida onde cada passo é um risco, um buraco eminente (quiçá um precipício) e mesmo assim, continuar andando e indo e indo e indo? De forma alguma, a vida é um acaso, e sei que mesmo dependente de todos os atos, ela acontece dentro de mim, todos os dias. Nunca fiz as malas, nunca coloquei datas no calendário ou fiz uma to do list, porque, veja bem, eu nunca estive preparada pra abraçar o mundo caótico que se faz presente em cada martelada no meu peito, mas eu fui com medo, eu calei o diabinho no meu ombro, eu mesma balancei meu carro pra mudar de rota, e que bom. Aceitar as incertezas e não me debruçar em qualquer esquina tem me feito a pessoa mais rica do mundo.

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Pra chegar até você é só subida

A gente se encontrou numa quarta feira à tarde e desde então a vida nunca mais foi a mesma. Nós demos as mãos e deixamos alguns trens passarem pra esperar o próximo, o próximo, e enquanto isso, fomos sincronizando as batidas em cada canto que parávamos pra sermos nós. Toda terça feira virava sábado. Todo domingo vinha acompanhado de fica mais um pouco. Eu ainda sinto seu cheiro mesmo quando não está por perto, no meio do caos, o barulho martelando lá fora, mas aqui eu te sinto e te lembro e te vejo. Mesmo de olhos fechados, ainda que não tenha amanhecido e o vento não sopre, eu me lembro. Eu me lembro de tudo. Eu ainda consigo visualizar suas formas, sua presença ainda está morando em mim, sua ausência ainda faz meu corpo pesar.

Nós nos perdemos no embaralho dos nossos corpos. Depois de tantas madrugadas viradas tentando fazer o tempo ceder mais alguns segundos pro nosso amor perdurar. Cada fôlego perdido. Cada palavra. Cada suspiro cansado enquanto nos olhávamos e sabíamos que nunca poderia existir um mundo sem nós dois.

Eu percorri todos os quarteirões esperando te encontrar.

Como poderia sentir tanta saudade de alguém que ainda estava aqui?

Posso recitar as coordenadas de todo caminho que me levou até você, mas nem com bússola, mapa de viagem ou waze consigo encontrar a esquina, o meio fio, a lojinha de bairro, a estação de trem, ou seja lá qual for o lugar onde eu te perdi. Só sei que escapou pelos meus dedos, escorreu feito grão de areia marcando tempo acabado. Nos partir arrancou nossa pele onde costumávamos grudar, mas hoje sei que mesmo com os dedos entrelaçados, nós nunca dividimos a mesma vida.

Pra chegar até você é só subida. Chuva na estrada. Roda enguiçando na lama. Trem atrasado. Escalada sem corda. Vento soprando ao contrário. Portas fechadas. Retornos perdidos. Mais e mais quilômetros a percorrer. E eu tentei, eu corri com os olhos fixos em você, mas a cada passo ao seu encontro, você recuava alguns a mais. Eu nunca tive chance. Foi como tentar subir pela escada rolante que desce e sempre se sentir em desvantagem. Não pude te alcançar, amor. Não posso amar alguém que não vem me encontrar na metade do caminho.

A descida sozinha tem me caído tão bem.

Hoje eu quero te contar de mim

Quando eu era criança, eu me escondia debaixo da cama sempre que ficava com medo. Aos 7 anos, eu não entrava mais por causa da altura e fui obrigada a olhar nos olhos de todos que estavam brigando em casa e nunca mais esqueci dessa cena. Prometi a mim mesma que cresceria falando o tempo todo sobre como me sinto para nunca chegar no nível de precisar de gritar. Às vezes, quando a vida é injusta comigo e me devolve palavras que eu nunca joguei para o alto, eu sinto vontade de tremer as cordas vocais até invocar todos os elementos para que possam me dar algum retorno. Gostaria de ligar para o SAC e reclamar sobre ter recebido um pedido trocado. Quero devolver meus produtos com defeito. Quero me devolver. Os técnicos já tentaram consertar, as baterias foram trocadas, a garantia foi estendida, mas não funcionou. A cabeça insiste em trabalhar em círculos e o coração faz muito barulho e não deixa ninguém dormir. Eu passo o dia esperando uma ligação que não chega, um campainha que não toca. Não estou esperando visita, mas gostaria que alguém chegasse mesmo assim. Queria que entrasse na minha casa, não precisa nem deixar os sapatos na porta, desde que sente na beira da cama e consiga ver que eu faço ruído mas ainda funciono. Tantos outros perderam tempo me levando à manutenção, fazendo orçamento e carimbando notas fiscais. Mas o que eu quero te contar de mim é que apesar dos problemas de fábrica, eu ainda existo. Os danos diminuem a velocidade mas a minha direção ainda é pra frente. Eu vou chegar lá. Mesmo se eu precisar me esconder debaixo da cama. Mesmo que eu chore quando está chovendo pois isso me lembra o dia que encarei meu pai fitando o teto com olhos sem vida. Mesmo que eu largue o prato em cima da mesa e vá me deitar no chão porque o dia está pesando os ombros. Ainda sim, eu não preciso que me abram e vendam as peças. Eu me estilhacei quando me jogaram do alto de um prédio, mas meus pedaços ainda refletem e podem guiar alguém. Depois de tudo, ainda me faço ser ouvida sem levantar a voz. Eu sigo me salvando da neblina que embaça minhas vistas e não quer me deixar enxergar. Tem muitas outras histórias que eu queria te contar, só não sei se ainda temos tempo.

Eu te amo como se todos os dias fossem sextas feiras

Eu te amo como se você fosse a cor na minha tela

Eu te amo como se tivesse sobrado nós dois em meio à ruínas

Eu te amo como se o fim do mundo fosse daqui uma hora

Eu te amo como se nosso amor fosse uma metáfora de mau gosto

Eu te amo como se todos os dias fossem sextas feiras

Eu te amo como se meu coração gritasse até ficar rouco

Eu te amo como se tivéssemos data de validade

Eu te amo como se nunca fôssemos nos magoar

Eu te amo como se a vida fosse feita apenas de batizados e nunca enterros

Eu te amo como se tivesse passado mil anos

Eu te amo como se tivesse acabado de te conhecer

Eu te amo como se fosse capaz de descrever em um poema [não sou – mas te amo como se tivesse disposta a sempre tentar]

E estou

2018: o ano de receber “não”

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É incrível chegar ao fim do ano riscando metas da lista e, consequentemente, ser grato às conquistas e feliz por mais um ano que passou. Mas nem todo ano é o nosso ano e a dificuldade está em se sentir completo ainda que durante os doze meses a vida só tenha nos dado “não”.

Preciso confessar que em 2018 eu fracassei. Sim, isso mesmo. Um fracasso. Mas por que não nos sentimos confortáveis para falar isso em voz alta mais vezes? Continue lendo “2018: o ano de receber “não””

Cada vez que eu chorei, você morreu um pouco

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Seu amor sempre veio acompanhado com resquício de abandono, mas agora eu não preciso mais fazer aquele estardalhaço sobre você. Eu não precisei te matar das minhas lembranças, você foi sumindo de mim por conta própria cada vez que me deixou chorando sozinha. Chorei por tudo isso e pelo tudo que eu sabia que iria virar nada logo. Mas a única falência que mata é a dos órgãos, então pude sobreviver vendo o que nós tínhamos virando ruína. Continue lendo “Cada vez que eu chorei, você morreu um pouco”